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Carta dedicada aos guerreiros do Xingu

Davi contra Golias

A identificação da luta do Xingu com uma história bíblica

No rio Xingu, por esses dias, está acontecendo um conflito com 30 anos de história nas costas que podemos associar aos valores que nos transmite a história bíblica do enfrentamento de Davi contra Golias.  Por um lado temos o forte, Golias, que conta com o respaldo de 32,5 bilhões de reais e todo o séquito de poder que o dinheiro arrasta– um verdadeiro tsunami de poder que acaba com tudo. Por outro lado, temos Davi, o fraco, transformado em tribos protegidas e isoladas por seu entorno cada vez mais perseguido, em modestos povoados tradicionais que habitam as ribeiras do rio e que sobrevivem de sua abundância, em habitantes de cidades com escassos recursos básicos e nos Movimentos Sociais sobrecarregados de trabalho. Todos esses Davis juntos personificam o povo.

Belo Monte é um nome aparentemente doce para um projeto repleto de incertezas e improvisações. Belo Monte é a história do forte transformado na terceira maior hidrelétrica do mundo e do fraco encarado um mal secundário,  malquisto por tentar atrapalhar o “desenvolvimento”. Belo Monte é favor da energia barata para exportação de alumínio, a favor da economia globalizada, a favor do progresso, a favor do crescimento a curto prazo – esse que os políticos  tanto gostam de se gabar ao final de seus mandatos. Será que Belo Monte é um projeto que leva em consideração os fracos que dele padecem? Segundo minha maneira de ver, não.  De forma categórica, penso que não.

A história atual está acompanhada de imagens. Houve uma, em particular, que entrou para a história: em 1989, o fraco deu dois tapas com um facão no rosto do diretor da Eletronorte, responsável pela obra. Dois tapas que deram a volta ao mundo, dois tapas que detiveram o forte por alguns anos. Que imagem tão simbólica! Todos os fracos unidos em um congresso dando uns tapas no progresso, dando uns tapas no progresso imposto pelo forte. Mas, o forte tem dinheiro e o dinheiro dá poder, enquanto o fraco tem coração. O coração dá valores, que não conseguem deter o poder. O poder protegido por seu dinheiro, então, voltou para a luta. Uma luta que ainda não acabou, pois o coração ainda não foi calado.

Eu fico pensando, depois dessa reflexão: quem é o fraco e quem é o forte? O que se deixa seduzir e se levar pelo dinheiro ou o que tem a capacidade de se sobrepor, com o poder do coração, ao tsunami de interesses do dinheiro? Acredito, sem dúvidas, que o forte e poderoso é esse que luta com o coração.

Obrigado, defensores do Xingu, por essa lição história que estão dando ao mundo e pelos valores que a equipe de 60 profissionais do “À Margem do Xingu – vozes não consideradas” aprendeu nesses dois anos de trabalho.

Damià Puig, diretor do documentário “À Margem do Xingu – vozes não consideradas”, depois passar 20 dias em Altamira- PA, em outubro de 2011.

   


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